7 de setembro de 2016

essa cena da vida

"diga a ela que quando eu beijo um amigo estou certo de ser como ele é"


dois toques de espaço entre o que eu quero falar e não é reprodução
muitos homens
eu não vou mais discutir com isso

e você
que poderia se chamar Saulo
mas rima

esse Estado
nossos ânimos mais cheios de sí
minha vontade de falar besteira aumentada
é infinita poesia regada de algum rock and roll

olha, a essência disso aqui reside no fato de que minhas palavras
adormecem
o que eu queria que
florescesse
ofegasse
e com a benção do movimento te digo
que não tem questão de ser uma mulher ou outra

somos todas

e a tua sociedade só tua

teus olhares proibidos

esse fôlego cínico

eu frágil

e forte.

tudo isso só pra escrever
que saco

3 de agosto de 2016

tenho escrito mal, o

Sinto saudade
Talvez te ame
Talvez faça alguma diferença o vacilante do seu manifestar

Você sabe que as varandas correm em tão paralelo aqui na frente que fica difícil pensar

Faz curvas

Vou lhe dizer da falta que faz esse silêncio preenchido de monções 
Ventos sazonais em geral alternados entre chuvas e secas

Olha, caro
Que poema ruim

Existe um querer aparecer
Só pela métrica
E todo um mal-me-quer da ética
Um foguinho doido
A falta de rima e tal

(O meu olhar e o mal)

Mas a saudade é coisa de amigos
É um vinho que podia descer fácil
Algum outro toque que desceria difícil
Sobretudo essa direção pulsante rumo ao nada

Cheia de calafrio e tesão no meio da estrada

13 de maio de 2016

vida pisa devagar meu coração cuidado é frágil

eu vou buscar aquela mesa chipandele na sua sala
antes que a gente se debruce
antes de que todo esse tesão em pó faça efeito

nem vamos lembrar daquele olhar sobre a multidão
ai sobre
ai sob
ai sem críticas
                                de preferência com você sem cueca

ou com aquela sua florida
com aquelas pernas altas
e antes que você duvide
esse poema não se desmente

sou e você SOB a cama
on demand
das minhas fantasias

vem cá preu escutar as suas

mas enquanto isso
tem um cochicho canalha sobre as minhas artimanhas
sobre os nossos insights pouco duvidosos
os encontros sem provas
sobre os suspenses
sobre os beijos suspensos
os toques incertos

estou falando do que é sensual
vem

e não

tudo bem se a gente continuar

nessa poeira pouca
grande
quase coceira
quase palavras baixas

uma língua

e a vontade

13 de maio de 2015

ROTA


Eu tô desistindo pouco a pouco. Não tem mais saída e escrevo para me desculpar um pouco por vender essa armadura que você emprestou tão carinhosamente. A grana é para uma passagem e uns cigarros. Eu desisti de lutar e vou voltar pra estrada.

Eu desisti dos cigarros e tô comprando uma nhá benta frutas vermelhas da marca mais cara. Para poder mesmo experimentar a marca mais cara. E depois de tomar o trem e me ver sem nada eu vou vender aquela nossa ideia de filme.

E vai virar um sucesso. E não vai dar pra dividir um direito sequer com você. Porque você arranjou uma mulher bem certinha, teve uma criança linda e ainda batalha pra ser algum tipo de artista que não é.

Enquanto eu ainda tentava conheci um cara que é artista de verdade. Ele me fez desistir bastante de tentar. Foi quando o mapa virou mais obra de arte. Mas eu não vou vender esse mapa não. Porque eu talvez ainda ame aquele cara. Porque talvez ele nunca tenha me amado.

Nessa grande missão de vencer a mim mesma parece que a fase não passa. Mas eu tô sempre ganhando vidas.

Mas eu tô desistindo pouco a pouco. Eu nunca gostei de maracujá e a próxima nhá benta vai ser justamente essa.

Da-marca-que-eu-bem-inventar.

10 de agosto de 2014

Enquanto eu bossa a gente flana no motel

Eu coça caso
Um monte de opção de casa pra alugar
Eu meio sem lugar pra morar
Você meio a se instalar

Enquanto eu fuço, foca
Nalgum farol nalgum mar
Um monte de pista pra dar
Enquanto eu finjo a gente forja
Um monte de música sua pra escutar

Um cronômetro no meio do nada a pausar
Pra gente beijar
Com tempo pra recomeçar

Uma poesia, dois motivos e um terceiro
Pro risco parar de brincar
De escrever e a gente riscar

26 de julho de 2014

De quando me apaixonei por um ator pornô

Sei que transformei parte da nossa história em contos eróticos, te tirei do ostracismo e fiz do Zeca um mito dessa mais nova sociedade transante. Mas eu nunca pensei que fosse me apaixonar.

É que o mercado exige, acima de tudo, postura e eu nunca apostei no jeito como você para. Essa quebrada, todo esse peso que você joga em cima da bacia. Essa tentativa desengonçada de ser ereto. Eu não tenho explicações para o que acontece no meu corpo quando você está a alguns metros de distância. Fico ainda mais confusa quando você resolve dançar.

Eu não sei como faz efeito. Não é o seu sorriso. Nenhum dos três cortes de cabelo que você decidiu experimentar desde que a gente se conheceu. Nada disso imprime melhor que os ombros largos do Astolfo, as entradas do Wagner ou o traquejo do Bruce. Mas eu fecho os olhos e não tem ninguém mais justo que você nos meus delírios de prazer carnal.

Hoje eu só queria dizer que eu gosto de você. Sem roupa. Cansado.  À procura do seu saco de dormir. Eu não passaria nem uma hora tentando achá-lo com você, mas a gente pode correr atrás de uma loja pra comprar... Eu também não vou pagar. Mas te dou ideias pra gente fazer uma grana e se nada der certo tudo o que eu mais queria era que você abrisse o jogo e me contasse quem é o Zeca por trás dessa fama de amor da minha vida.

Sem pressão. Fica aí. Eu fico aqui tanto tempo quanto você quiser que eu fique longe. Eu não preciso me fazer de forte quando a minha fortaleza é saber que eu não domino nada disso. Quando você passa eu olho, quando você olha de volta eu me inclino pra cumprimentar, quando você se inclina demais dá nessa dança. E você nem sabe dançar. Mas sabe o bastante pra eu me apaixonar.

21 de maio de 2014

Xoni: um estado. Um estatuto.

To numa leve hesitação. Pedindo paixão. Ouvindo Caetano e vendo o Zeca em pb. Descendo desembestada essa ladeira que sobe pra descer e quando peca e pega e roda e mete e paira.

Serve só pra flutuar. Pra virar poeira poética. O estado bobo da gente. Essa fantasia de membros dormentes. O balbuciar de palavras meio ditas; meio sem coragem de dizer. O encantamento entorpecente. O que hoje faz medo traduzir em paixão.

Estou numa constante. Sou a criança que pede mais uma vez. E outra. Eu eternizei esse instante e a complexa lógica do mundo boicota a sensação do detalhe. Vamos passar a vida inteira falando difícil pra falar mais e ficar perto um da boca do outro até que vai ser impossível não morrer pra gente mesmo. Aqui. Nesse beijo.

Nesse olhar. Nesse toque, talvez.

A sensação. A do detalhe. A que funciona em close-up. De olhos azuis. De narizes grandes. De furinhos ao redor da boca. De toque no pandeiro. De falar formal. De falar pedindo desculpas, feito falar mineiro. Feito gaúcho. Feito qualquer desses homens pelos quais eu me apaixonei.

Mas que seja bem diferente pra ser único. A gente se apaixona quando você ri de cabeça baixa. Pela cara de bom menino. Pelo jeito como se escora na porta dos fundos à espera de uma promessa de sexo casual em plena madrugada. Porque você é um pouquinho desse desengonçar com um quarto de parede laranja.

A gente já se apaixonou pelo signo da sua mãe; que é o mesmo que o meu. A sua habilidade de me apelidar com o nome de grandes divas. As suas olheiras. De calças caídas. De cigarro. Enrolando um baseado. Você de oclinhos e estudando. Fazendo ponte. De casaquinho de crochê da vovó. Jogando dama comigo na pracinha. Só.

E no escuro.

Com versos do Cartola. Sussurrando o proibido. Com tudo o que disse mais um mocinho bandido do Rubem Fonseca. Só a respiração.

Só paixão. Faz mal nenhum se apaixonar. Assim pequeno. Assim sem esperar.

Assim meio Zeca. Meio mela cueca. Meio lembrando de como era bom só gostar.



Q’o mal é saber nonde tudo isso vai dar.

30 de março de 2014

A insaciável vontade do tempo

Não gosto mais de bala de tamarindo. Botei na boca, fiz questão de tentar até o fim e não deu. Nem deu pra lembrar como era gostar. Fiquei com aquele azedume perdido no tempo de quando parei de gostar; a dúvida do dia que aquele prazer vai voltar, mas mal dá pra engolir seco esse meu novo estar.

Eu gostava de bala de tamarindo. Era básico. Tinha todo o tempo e sem medir tempo pra esperar. Era certeiro, não tinha mistério. Um dia o tempo passou, eu parei de chupar tamarindo e ficou a lembrança. E chupar tamarindo não é mais como lembrar como era chupar.

Sabe, eu amo Frumelo. Não é básico, muito menos certeiro. Às vezes tem um pacote que eu não sei se pode abrir. Então eu espero. Tem vez que o pacote abre, todo mundo pega e eu fico sem. Depois de um tempo vai ter outro pacote. E pode acontecer o mesmo. Ou pode acontecer da minha vontade de comer Frumelo ser maior, eu roubar o pacote e ir me deliciando aos pouquinhos.

A minha relação com Frumelo é assim. Pouco enjoativa, cheia de perigos, cheia de gente me dizendo o que eu tenho que fazer e eu a fazer tudo ao contrário. Acho que só Frumelo me entende. Acho.

Mas bala que satisfaz é de momento. Tem aquele pirulito muito doido que explode na boca. Tem de várias marcas. Não é como Frumelo que só Frumelo é como Frumelo. O pirulito eu encontrei até na Europa com um nome diferente; nada europeu nem rebuscado, coisa meio árabe mesmo, meio de fim de noite. Sabia que ia ter no Brasil igual e fiquei meses explodindo coisas em mim. Até passar mal.

Bala saudável é hortelã da Garoto, por tradição. O tempo me trouxe um encantamento pelas coisas formais e saudáveis, eu que sempre fui de vício e autodestruição. Eu que sempre fui de chupar todas as balas do pacote de uma vez, dessa vez eu comprei um pacotinho. Aquele pequeno pacote de hortelã da Garoto. E uma de cada vez. De primeira, que foi muito menos careta do que eu esperava – e bom. De segunda, que foi bem maior do que eu esperava. E até o fim. Até o fim que eu não quis dar.

Enquanto restavam as últimas pastilhas do pacote eu fui conversando com a razão. Fui admirando aquele quadrado bem doce numa vontade sem critério de por tudo de uma vez na boca. A vontade de por doce na boca me levou ao tamarindo e me fez estranhar todas as balas do mundo. Me fez lembrar de Frumelo e que sempre vai estar lá. Me fez desistir de passar mal demais. Me fez ver que um dia a gente pode simplesmente deixar de gostar.

Embrulhei a hortelã com as que faltavam pro pacote acabar e num acesso de raiva da espera não acabar eu joguei em algum lugar que agora vai dar muito medo e preguiça de achar.

15 de março de 2014

O Bom-menino

A minha janela fica na curva
Não quero saber quem vem
quem vai embora
Eu mando beijo
jogo as tranças
espio pela fresta
Ninguém empresta metade ou um quarto da hora
Todos chegam pra eternizar

Resolvi fechar janela
e tocar a orgia aqui dentro
; cruzou a esquina um Bom-menino
Parei pra admirar

Bom-menino chega bem na hora
que falta fé
- Bom-menino, vai embora
vou dizer bem assim
Bom-menino, estou debruçada
perdão pela ousadia, mas fica mais
que gosto de esperança a gente quer sentir pra sempre

e acaba
acaba o gosto
deixa o menino
Bom-menino

- Corre
Pisando de ladinho vai mais rápido
Sai que eu sou roubada
e você é tão bom que eu quero convidar
pra entrar aqui dentro
conhecer minha cozinha
minha casinha
meu circo; de horrores
e amores
Você é tão bom
de bondade
que sou todos os dedos pra maldade

Você é tão bom de bondade
e chegou tão na hora errada de verdade
que eu vou fechar janela
pra não te chatear
com a falta de mundo que há em mim
E a vontade de ser plena
falta bem na hora
que eu vou me debruçar
e por isso vou fechar janela
pra não te chatear

Bom-menino

lindo.

7 de março de 2014

A MENOS UM VEZ

Dar ou não dar. A questão é por quanto tempo prolongar. Fodam-se os meus desejos. Foda-se a minha vontade. Deixa descobrir que a transa poderia ser boa sem que ela de fato tenha vindo a ser. E é o século 21. E eu ouvi faz tempo que não era pra dar de primeira.

Passei uma vida questionando esse princípio. Acreditei por muito tempo na magia do momento; em situações isoladas que me renderiam momentos incríveis. E renderam. Mas eu falo de uma permissividade. O permitir-se que exige bem mais coragem do que a decisão de dar ou não a xoxota.

Comer depois de já ter experimentado é o poder que o homem se permite ter de levantar ou não a saia. É uma hipocrisia do caralho. E eu deveria ter entendido isso faz tempo se o meu lance era fazer render aquele brigadeiro que por um milagre esteve no ponto. De presente de aniversário eu ganhei a ideia de não dar de colher na boca de ninguém.

Combinei com um amigo de tentar essa experiência. Um que já me comeu de primeira vez. Mas é que eu precisei chegar à vez  de número “menos um” pra entender que o mundo disfarçou uma entrega. Que é bem bacana e cool ser moderninha e se render ao desejo de momento. Mas nunca será tão transante investir num jogo que não é o homem que sai ganhando.

Uma palma e meia para os que continuaram a sair depois de um sexo de primeira vez. A metade de palma que falta é esse suspiro de consciência por amostragem: eu já dei pra sete caras de primeira. Somente um quis continuar me comendo.

É. Meu sexo é ruim e esse é o relato de uma mal-comida. Eu vou discutir o apelo social e sexista da questão já que eu não posso estuprar um cara. E nem quero.

Faz tempo que eu entendi que o sexo é bom quando a gente quer. E ponto. Enquanto isso a sociedade tenta me convencer a baixar a mão do cara que tenta invadir a minha pélvis.


Só que da próxima vez eu resisto.

22 de dezembro de 2013

Ao que é efêmero

Enquanto os pais brigavam na sala sentou no chão do box de um banho gelado com medo da lacraia sair do ralo e fazer viver todo aquele sofrimento que não se tem ideia do quê seja. Se viu caindo no trilho do metrô. Depois só sentiu o vento do vagão passando bem na frente. Aquele vislumbre da vida de olho fechado. Como todo beijo apaixonado. Como toda vez que ninguém pode saber que é paixão.

Quase todo dia morre um jovem de felicidade enquanto desce o gole da cerveja mais gelada. É que ele leva o tato do copo americano e o calor do Rio. Todo dia a gente ganha um prêmio de consolação por aturar a gente mesmo. Quando sente que é funcional continuar vivendo pra ter ápices de felicidade seguidos de súbita melancolia decide sair de casa pra encontrar alguém que nem é tão interessante assim mas pode transformar meros toques casuais numa casinha. Numa caminha. Em tudo que é muito pequeno e corre o risco de ficar muito grande. Tudo que vale a pena arriscar.

Nessas horas todo mundo é como todo mundo é. Fica emocionado com o menininho perdido que a gente ajudou a encontrar a mãe porque acredita que a possibilidade dele ter entrado na nossa vida é a mesma de cada pai dos três filhos que alguns de nós queremos ter. Cada um dos três pais.

Eu nunca achei que fosse me viciar em drogas, nem na máquina do tempo, embora eu tenha certo pavor de estar obcecada pelo momento que eu conheci o menininho perdido que eu ajudei a encontrar a mãe.

26 de novembro de 2013

Enquanto eu faço um remédio da minha cabeça

Um banheiro de pastilhas cinco por cinco nas cores amarelo, azul, verde, vermelho e branco. Sem qualquer formalismo. Podendo fazer o desenho que for.

Um belo dia acordam no teto dois pelados. De cabeça pra baixo ficam supondo as inúmeras possibilidades de figura e fundo que o colorido promove. De tanto ele olhar praquela florzinha igual a do anel dela que ela aposta que está bem na direção da ponta do pé esquerdo. Ele diz que está com quadradinhos coloridos nos olhos. Ela ri e fala que é a quantidade de anfetamina na cabeça dele.

Ela ganha um beijo atrás da orelha. Cai uma lágrima.

O chão do banheiro tá ensopado. Cozinhando uma infelicidade.

Ela quer alcançar o telefone da emergência boiando lá embaixo, mas a gravidade não existe mais. O frio na barriga não tem mais o gosto daquela pele cheia de sal. A água toda é menos úmida, mais insossa.

Ela fica p(a)irando no teto. Tenta encontrar ele lá embaixo.

Espera o momento que um braço vá emergir e puxar uma cordinha que a despenque. E que ela caia na água. Sinta o corpo dele. Que eles façam na piscina. Que toque o que há de mais cafona dos anos 70. E nunca mais a ressaca vai ser tão ruim quanto tem sido.

Um banheiro de pastilhas cinco por cinco nas cores amarelo, azul, verde, vermelho e branco. 
Nele toda a loucura faz sentido.                                                                                                 
Fora dele eu to perdida querendo encontrar a chave dele de mim.

11 de novembro de 2013

Mondongo

Estive com você treze vezes antes de conhecer. Em alguma delas você hesitou em perguntar a direção do portão de embarque porque eu tinha cara de cigana. Na décima esbarrei na corrida pra pegar o ônibus e tive vergonha de pedir desculpas. A primeira dessas vezes fomos as duas crianças tímidas convidadas a subir no palco de um teatro de domingo. Você ensaiou um passinho da quadrilha e eu acompanhei. Me deu um beijinho na bochecha e me esqueceu.

Eu esqueci de você algumas vezes antes de te ver. Te olhei várias antes de reconhecer. Já estivemos a menos de cinco metros em alguns festivais; na mesma fila daquela mesma casa noturna; atrás um do outro na disputa pelo primeiro drinque grátis. Fui apresentada a você uma vez enquanto ensaiava uma abordagem ao seu melhor amigo. Você veio me dizer há muito tempo que eu era parecida com uma amiga sua e eu certamente fui antipática. Eu sou de fato parecida com uma amiga sua. E nem foi ela que nos aproximou.

Te vi numa noite. Te olhei numa foto. Te reconheci num show. Mas acho que nunca soube bem quem você é. Coleciono uma série de possibilidades de te encontrar por aí que sempre foram tão fartas quanto parecem agora que eu vivo a colecionar. É como se eu tivesse entrado na fase em que você existe. O fundo e os movimentos são os mesmos, mas existe uma nova dimensão. Ou existe a vontade de ter te encontrado antes, ter aproveitado mais, ter usado óculos.

Quando eu já sei onde te achar e fica cansativo encontrar, a experiência vira uma história. Eu adoro histórias, mas elas serão eternamente melhores como experiências. Nesse momento eu choro, pra vista ficar turva de você. E tentando não te ver eu vou reconhecer que existem muitas dimensões, a gente enxerga muito pouco e nunca cansa de encontrar. E quem sabe da próxima vez que você passar eu vejo alguém que eu nunca soube enxergar.

21 de setembro de 2013

Grande Zeca

Zeca quer que eu tire o short. Zeca mete o pé no acelerador e a gente goza.
A válvula de escape da nossa vontade é botar o carro pra andar.

Zeca sabe um pouco que eu penso um pouco nele.
Zeca sabe mais que eu penso nele só pra fuder.
Zeca deveria saber que eu sou de tremer.
Paramos nessa parte que as partes entram e saem.
Ficamos parados numa vaga sem ter muito pra onde sair.

Nesse momento eu odeio os nossos pais e esse excesso de zelo.
Dane-se. Ele curte me tocar.
Eu curto o sorriso dele.
Enquanto percebo ele sorrindo esqueço quem pode nos perceber.
Foda-se. Não, me fode. Ah, não fode. Ta tocando Elis, é isso mesmo?

Toca Elis e me toca, Zeca.
Deixa eu montar em você.
Eu vou pensar que de uma outra vez você tira a cueca e fica mais fácil de lamber.

De uma outra vez eu quero beijar bastante tempo
Mas de um jeito que tem tempo pra acabar
De uma outra vez a gente tira toda a roupa
E ainda faz parecer que não pode tirar
Dessa outra vez quero que você ponha tudo
Tire só na hora que não der mais pra ficar

Pare bem depois que eu pensar que você vai parar.

9 de setembro de 2013

É por eles que vou me apaixonar

Agenor não faz ideia. Deve conversar com outras duas garotas além de mim. Eu converso com outros sete caras além dele. Por amizade, por sexo e na maioria das vezes pra treinar a minha habilidade de responder coisas divertidas num curto espaço de tempo. É como se eu fosse um hamster que acaba de entrar na roda
.
Agenor tem seu charme e nenhum animal de estimação. Não entendemos muito bem o porquê de manter uma relativa distância enquanto discutimos questões calorosas, mas deve ter a ver com a física quântica. Faz parte do léxico complicado das coisas não ditas. Deve estar explicado na mesma enciclopédia que me fará entender qual a nossa dificuldade com toques e cumprimentos.

Ninguém nem imagina, mas eu sei que todos sabem. Agenor e eu somos apenas amigos. Somos menos amigos todas as vezes que por menos de três segundos me imagino mais perto da boca dele. Mas ninguém nem imagina. E eu sei que todos sabem.

O que sinto por Agenor não é bem amor. É menos que paixão e mais quieto que um furor. Um dia o meu bem partiu e foi Agenor quem ficou. Escutando a minha espera. Cada sorriso meu de saudade ele acompanhou. E sorriu de volta. E de voltar que dia desses me declarei viúva.

Posto isso caso com Agenor e volto para a realidade florescente do meu computador. Qualquer chat virtual me permite criar um verdadeiro amor enquanto eu finjo que não vi o Zeca passando de bicicleta. Finjo que não o vi quando ele estava bem ali. Ficamos eu e Zeca nessa fofoca sem dar uma bitoca meio que numa lorota a enganar o Agenor.

Deixo os dois pra lá. Essa era da internet é boa que não me compromete que eu compro um monte de cassetes e é por eles que vou me apaixonar.

27 de agosto de 2013

e no mais tudo na mais perfeita paz

Pro seu approach brazuca te passo Novos Baianos
Enquanto deixo de gostar um pouquinho dele
Gosto um pouquinho mais de você

Vão inventar a gente numa música inventando gente que inventa gente da gente mesmo
É uma questão de coragem
De colocar o Doutor Agenor pra beijar a boca de uma amiga

Eis Agenor, um cara comum
Tão normal que da vontade de ser normal do lado dele abraçadinha no frio enquanto sai fumaça do café
E ele nem gosta de café

Eu também não
Não sou do Rio, do Brasil, da Tijuca, do sul nem do norte, nem da gente
Nem gosto de café

Eu vou comprar uma Kombi antes que saia de linha
Vou por o Agenor pra dar o beijo proibido na hora proibida

Depois a gente cai na estrada fugindo da impressão que tudo deve ficar quieto quando nunca está

14 de agosto de 2013

Eu e minha amiga Clara

Hoje saímos eu e minha amiga Clara
Em meio a uma tempestade de chuva rala
Mas nem chove e nem faz sol
É casamento de mentira, de viúva e de espanhol
São duas cabeças nubladas
Uma dor-de-cabeça de gente grande
A gente Chloé, a gente Capitu, a gente Ghandi
O coração batendo asas feito elefante
Eu trupico, ela tropeça
rimos a beça
desse vinho que não é de mesa
que soubemos bem escolher

Veja, Clara
Tu claramente podia ti chamar Laara
pra rirmos bastante desse "ti"que eu pus aqui
Vamos falar de política, falar mal, coisa e tal
Vamos nos ater a razão
Andar na contra-mão
Pensar um pouco e criticar
Viver um monte e se atrapalhar
Ter amigos

Eu quero é deitar na rua e quem não quer
Andar no viaduto e seja o que a gente quiser

8 de agosto de 2013

A profecia
















Com a chegada da primavera o mundo sucumbirá a um precipício extenso entre o sul e o norte. Nesses tempos de hoje nada que afaste. O solo em depressão é o calo da gente ao revés. Um incômodo nítido e impaciente. Tende logo a se sarar.

É com o aviso que espero ver todas as companhias aéreas se compadecendo.

A causa nessa eventualidade é um misto atípico de acaso e saudade. Um acúmulo inesperado de não ficar na vontade. Uma sedimentação involuntária de conversas sinceras, olhares furtivos e brechas covardes. E a covardia sucumbe à coragem que sucumbe à covardia que sucumbe à coragem... Que torna tudo mais profundo.

Dessa maneira é complicado prever com que frequência, mas pouco a pouco enfileram-se corações conectados prestes a se jogar. O acontecimento tomaria proporções incalculáveis a partir de um suposto declive também entre leste e oeste. As consequências se dariam em progressão.

No entanto, nada desastroso. Coração que se joga o vento leva. A previsão do impacto não há de remediar. E o King Size no terceiro volume da sua extensa obra observou que a loucura era a dose certa entre a falta e a vontade. De tal maneira o que preenche a brecha da saudade.


E nós estamos tratando de brechas. De eu e de você e das malditas companhias aéreas.

9 de maio de 2013

Quando num ônibus eu deveria estar a pé.

Brigou com a família.

Saiu de casa.

Pensou em como queria ter os braços de um garoto pra poupar a calçada de suas lágrimas.

Olhando pra calçada, esqueceu de olhar o semáforo.

Foi atropelada no cruzamento.

Morreu dois dias depois.


Brigou com a família

Saiu de casa.

Pensou em como queria ter o colo de uma menina pra poupar o volante de suas lágrimas.

Olhando pro volante, perdeu os reflexos.

Atropelou alguém no cruzamento.

Ela era mesmo linda.


(...)

Quando num ônibus eu deveria estar a pé.
Quando a pé eu deveria estar deitada.

29 de abril de 2013

untitled


Eu gostaria de ter 40 anos pra entender o que está acontecendo. Sou mais imbatível que esse super-homem deitado no divã. Eu tenho uns óculos com os ares e aros de fanfarra, mas a minha conduta é nada ousada. Nada careta. Eu to perdida.

Ter 40 me ajudaria a acalmar o coração impaciente que cruza a esquina e enrola o cabelo pra esperar o grande amor. Ajeita a coluna lendo um livro na pracinha quando passa alguém que pode roubar o coração ou despertar qualquer suspense que preenche a falta da mínima aventura necessária pra anotar o celular com giz no meio da amarelinha que as crianças largaram pra ir jogar videogame.

Eu tenho um amigo brilhante que vira noites zapeando a TV a cabo. Ele não passou de ano no terceiro ano, mas suas conversas de bar deveriam estar imortalizadas em coletâneas com capa dura. Eu tenho uma pá de amigos incrivelmente frustrados, fracassados, fudidos. Uns vários que escrevem, tocam, interpretam, soletram muito bem. Eu tenho a sensação de que todos eles viram as noites zapeando a TV a cabo.

Eu quero ter 4 filhos. Duas meninas de um francês, um menino de um pernambucano e outro de um baiano. O meu primogênito eu quero que trabalhe com restauração. Nenhum deles pode ser engenheiro, nem economista. Advogado só pra trabalhar com direitos humanos. É muito importante que todos sejam de esquerda. Eu teria discussões homéricas com o caçula se ele resolvesse apoiar algo como a redução da maioridade penal. Depois eu jogaria no sofá e faria cócegas.

Aos 40 eu espero ter tido pelo menos um relacionamento estável que olhe com carinho pra todas as paixões ensandecidas que deixei na estrada. Que seja cordial com as que me acompanharão até o fim da vida. Um grande amor deixa mais que filhos. Já mãe, aos 40, eu espero entender o que isso significa.

Quero ser como o meu velho que só faz inspirar todos os bilhetes daqui-pralí que compro nessa Europa que vai ficando pequena pros meus 20 e poucos anos. Quando eu estiver numa livraria minúscula em alguma cidade do estado de Oregon eu lembrarei dessas noites que passei em branco tentando resolver em poucas horas o que fazer dessa minha desajustada vida. E lembrarei que resolvi escrever.