16 de abril de 2010

Amo e amo



Entenda que eu te darei outro sintoma:
Quando você se faz em dois
Um que esqueceu o limite entre a sanidade e a loucura
E pula de um lado pro outro
Divergindo em maiores alegrias e piores dores
Querendo acreditar que aquele é seu maior amor do momento

Pior que é

Outro que é menos você, justamente porque tem razão;
Mas que é cúmplice daquele que ama
Te proíbe de falar o que pensa
Nem te deixa olhar que nem bobo quando o seu benzinho fala sem parar
Quer apagar o vermelho das tuas bochechas
Conter os corpos que se querem feito um grito

Só o coração sente
Tentando falar em dupla, precisando falar de pressa

11 de abril de 2010

Cameu , Proseu e a pedra



Proseu e Cameu eram inseparáveis desde meninos. Estudavam juntos, tocavam juntos e aproveitavam o resto da semana juntos também. Como no primeiro sábado do mês, quando acordavam cedinho pra ir explorar o bosque atrás da vila onde Proseu morava.

Lá era uma imensidão. Tinha riacho e cachoeira, lagarto, cobra, limo nas pedras, uns jardins de flores bonitas misturados com umas árvores altas, com casa de marimbondo lá no topo. Tinha vez que eles só tomavam banho de rio. Aos sete anos, quando começaram a fugir pra lá, passavam dias catando gravetos pra construir uma casa da árvore. Nunca conseguiram terminá-la, daí o abrigo ficava sendo uma figueira que tinha bem no meio do caminho.

Quando fizeram nove anos sumiram por uns meses, a grama ficou alta. Depois voltaram com dez trazendo inspirações como a Ilha Perdida e o poster do Dennis. Com doze a diversão era a coleção de Playboys do primo do Cameu; o Proseu levou a foto da Ritinha também, de calcinha e sutiã, no vestiário da escola. A Ritinha (sua foto, melhor dizendo) podia ser dividida entre eles; assim como as fitas de 64 e o chapéu de "aventureiro". A dupla não discutia por muita coisa.

Até um dia que Cameu foi dar uma volta pelo bosque sozinho. Tinha perdido um desenho que ia transformar em tela; caiu no vaso sanitário por acidente. Ele foi direto pro forte, tirar o baú deles do fundo da árvore, dar uma olhada nas modelos antigas, nas cartas de Trunfo da fórmula 1. Achou o bodoque velho - que serviu de explicação pra música do Chico numa aula de Literatura da oitava série - e resolveu catar pedrinhas.

Perto da menor queda d'água ficavam as pedras mais bonitas. Algumas preciosas certamente. Uma verde irritava seus olhos, quase que brincava com a luz do sol. Ele catou essa pequenininha e enfiou no bolso. Mostrou pra Proseu no dia seguinte, que disse que era uma crisólita. O pai dele era geógrafo e tinha um livro com uma foto imensa desse pedra rara. Eles decidiram guardá-la no baú.

Cameu viu Proseu carregando-a um dia no pescoço, por dentro da blusa. Concordou que era mais seguro e que até combinava com o estilo do amigo. Ficou sonhando com a pedra e pediu pra desenhar depois de umas duas semanas. Criou diversas jóias: um anel, um colar e uma tornozeleira; cada uma mais bonita que a outra. Mas a pedra era melhor ainda bruta. Cabia perfeita entre os ossinhos do dedo médio e o fura-olho, como não cabia nos de mais ninguém.

Cameu tinha um ciúme infinito da crisólita, até com Proseu. Tinham decidido partí-la ao meio, mas logo desistiram da idéia. Ela virou o passatempo de um e o talismã de outro. Um queria, outro necessitava. Era de um e pra outro. E eles eram amigos. Amigos como eles não brigam, não entram em questão. Guardam o verde infinito pros sonhos mais íntimos. Decidem que não possuir é melhor pro amor.

...

Torcemos para que Proseu tenha encontrado uma água marinha tempos depois. E Cameu carregue crisólita pura entre seus ossinhos. Amor por amor, melhor não se desfazer da amizade * nem deixar um friozinho na barriga passar.

6 de abril de 2010

Ciência, política e amor

10 de novembro de 2009


A costa leste em um harmônico breu. Outros podem ter optado por uma interpretação mais pessimista daquele BO, mas eu estava bem de calça jeans, pizza e carona. Bem com os que resolveram bem sumir, bem mal fazer às lembranças de um tempo como o melhor. O filme do passado parece mais palpável do que isso que estamos tentando gravar. Esse ensaio de uma complicação interna difusa calçada em birrinhas de amigos eternos.



Vou então me apoiar na memória. De uma terça de Domino's no Humaitá com uma galera meio doida que te faz feliz sem querer. Foi quando tudo apagou e além dos blacberryS multicoloridos sobravam pontos de luzes (nem néon, nem quimicamente instáveis) aguardando pacientemente um novo Big Ben.




O fim do mundo era uma fantasia gostosa de embarcar que correu veloz pela Epitácio Pessoa. Os cinco/quatro sobreviventes tentavam capturar imagens entre o preto e o cinza de uma noite muito quente e sem chuva. Depois nós varamos a noite conversando. Depois estávamos eu e um parceiro comendo besteira num posto de gasolina, esperando o túnel ficar seguro de passar. Dentro do Rebouças eu avistei o outro lado de um espaço psicológico; deu uma vontade infinita de fazer o tempo parar.


05 de abril de 2010

A janela do ônibus pintava umas coisas bonitas de ver. Uma cachoeira translúcida, um pinguço sem camisa no meio da Jardim Botânico nadando contra a lucidez, o braço esquerdo do Cristo borrado. E de fora, agente sabia que dava pra ver um grupo de jovens que transformava a maior enchente dos últimos anos, numa máquina de fazer o tempo passar rápido.



Notícias sobre um carro alagado. Mais tarde o panorama do purgatório do caos. Enfim, a condenação superficial, e nem por isso injusta, de um bando de babacas. Os que nada fazem, os que fazem errado, os que não votam, os que votam errado, os que reclamam e os que ficam calados. A solução persevera no reclamar, votar e fazer, por saber que o nosso Redentor não cruza os braços.


?

A tela que pintei contava uma história de amor. A menina nuinha aos trancos e barrancos; em pingos; no ar, querendo te arrancar a razão. O moço se derretendo, se contorcendo, tentando ficar empezinho. Um vivo pelo outro, pois se tinha chuva e temporal, todas as casas iam correndo acender suas velas.


Numa mistura de percepções eu te enxergava perfeito. Cada detalhe bagunçando a tradução dos meus sentimentos. Olhava pra água correndo no meio-fio e era assim como eu passando irredutível ao nosso redor. Rompiam-se todas as barreiras, se tinha jeito pra tudo.


Uma brisa forte entrou pela janela. Todo mundo percebeu, todo mundo se arrepiou. Quem veio com o vento foi a água, sem pedir licença, tomando tudo. E com a volubilidade que lhe é peculiar criou um balé fantástico ao redor da chama. A vizinhança toda iluminada. Todo mundo brindando a tempestade, de frio e calor, de água e fogo, de amor.

27 de março de 2010

Usa óculos escuros - mais uma interpretação

Requisito: que meus amigos parem com a preguiça e leiam um singelo poema de quatro estrofes! Só quatro estrofes!


Quem não tem colírio
soca o travesseiro,
se vira do avesso.
- Não dorme de novo!
Não tem recomeço!

Quem não vê o empecilho
é porque vai dormir.
#Inventa um celeiro
naquele mesmo endereço.
Mente pra mim se eu sorrir;
diz que é fim sem eu pedir.
Cala o consenso que eu emudeço.

Beija-me mais, não me desvencilho
nem você se descompromete.
Já sou tua - na tua voz que repete#
E lá na rua ta você possuído
jurando pra ela um amor falido
diferente do nosso por alavancar.

Ceguei teu pavor com um delírio.
Olho pro preto numa máscara de sonho
Será o sentimento do qual eu disponho?
Põe os escuros e me dê um colírio
Talvez eu enxergue o que é
Delirando em ser tua mulher
Percebendo o que você não quer

(ou eu não quero)

18 de março de 2010

O texto e eu. E meu amante: o filme.

Descobri que a descendência do hipertexto é o cotidiano de uma geração plugada. Eu ia falar que estamos todos na mesma vibe, mas isso só é consequência do modo on no qual vivemos. Novamente peço que não levem em conta a prepotência desta que vos esclarece as coisas. Entremos numa onda de que só a nossa geração mesmo viveu essa vibe até agora. Meu palpite é o de que nossos avós se reprimiram, nossos pais piraram e nós fingimos que estamos doidos depois de dois goles de Ice. Eis uma palpitáfora.
Mas hoje só eu vi um filme que tinha tudo a ver com uma crônica que só eu li que refletem essa vidinha que só eu vivo. Não foi apenas meu coração

- um dia eu assiti um filme indicado por um amigo e tive a sensação, no decorrer das cenas, que meus batimentos funcionavam de acordo com a velocidade de rpm do dvd; eu penso até hoje assim -

Não foi apenas meu coração que acelerou daquele jeito que nem nos filmes que agente quer entrar. Foi que o o mocinho é o Tom Hanks indie e desacelerado como a gente gosta. A mocinha é o parceiro cheia de opinião pela qual nós esperamos que eles fiquem encantados. Foram os inúmeros diálogos. O para-brisa limpando a marca de batom no vidro do carro [como as caixas de tic-tac caindo do correio]. Foram as boa referências musicais. New York. Talvez até o final feliz.

O estímulo interessante causado por breves minutos de êxtase me fez pensar sobre o adeus. Dizem que tudo começa quando conhecemos um alguém, como aquele álguém com o qual a infinidade de palavras beira a preocupação abismal de que nada pode dar errado. O vocábulo oi é o então adeus. Buscamos nada mais que a superação da barreira. Ou do absimo. 

A pessoas que está diante de nós, se também interessada, se desfalece. Renasce em quem ela é. Nos encantamos duplamente: pelo ausente que se faz presente, como pelo passado que se faz ausente. Trair o que primeiro sentimos, para poder sentir o que verdadeiramente somos. Ou continuar conquistando mais, se envolvendo menos.

Lá está um primeiro beijo de adeus. Graças a Deus. Querer iludir o público dizendo que essa segunda pessoa é uma dádiva é uma besteira. E uma possibilidade. Mas aí eu fico com vontade de viver isso. Que é só um filme. 

Lá estão os perfis do gênero da gente (ok, pode ser que ninguém concorde comigo). Uma mulher deitada em coma achando que vive. A outra que desliga a televisão quando depois de zapear os canais encontra um filme só seu. Nada de infinito e eutanásia. O lance é buscar essa noite de amor e música. Buscar pra valer.


3 de março de 2010

Vem me exorcisa



Escrito em 25/02/2010 às 00:40.


...



Conheça uma menina que nasceu há exatos 19 anos. Não posso me dedicar a contar o início de sua vida, já que tenho estado de consciência presente de uns quatorze anos pra cá. Não houveram grandes mudanças no mundo, nem ela, nem dela. Ou só no dela. Ontem ela subia a única ladeira doce de sempre, que a conduz ao palácio de eras no meio do seu nada. Em 2010 ela subiu ouvindo sua música.


Não podemos dizer ao certo se Jobim compôs o nome composto ou o singular primeiro, mas certamente conheceu uma Luiza para querer galgar a muralha até a Anna Luiza (vou colocar a grafia na minha mesmo). E quem a foi de alimentar sonhos infantis de que suas conversas com a Lua eram mesmo de verdade. Faz duas semanas que o pai a pegou deitada no quintal olhando o céu estrelado do Rio, eu percebi que ela cantava uma ciranda, que é chegada em milagre. Que milagre algum chegou, nem trovador.


Por isso ela é Anna também. Tem alguma inteligibilidade ininteligível fruto de pura fé que a fez construir os vales, os mares, os montes, as flores, as fontes. Teu mundo é cercado assim, de espécies simples, do que só se vence pelo esforço, por nada mais.


Olha a menina lá no meio, no meio de um banheiro. Com uma máquina de escrever de última geração, balançando os dedinhos, soltando a música, calando a música, sendo quem é, quem acha que é, quem gosta de ser. Refletindo olhando o seu reflexo no vidro do blindex. Apagando a última frase que vocês não descobrirão. Delatando a última gota de insegurança dessa porção. Ela pensa até em voltar a jogar Freecell.


Nem venha me perguntar o porquê. Dela se cercar de artifícios fáceis, dela cuidar do que não sabe ser, dela velar o que já é mistério. É justo que ela seja o maior deles. Se não entendes teu valor escreva um texto inteiro sobre o que pensa ser.


Olhando uma foto dessas novas e sem vida; dessas sem papel; sem toque e cheiro; ela se viu. Jogada na cama, de bruços, com o rosto em evidência, os dentes entrecortados, a boca semi-aberta, um sorriso evidente da meia-cova do lado esquerdo, o cabelo preso torto e os pés a mostra do lado direito, um coçando o outro. Além do texto, a foto também é resultado de pura vaidade. E o fundo é a prova de tudo isso que eu guardei somente pra te dar Luiza.


A redoma sem proteção da primavera em si. Não é toa que a escolheu sem a conhercer sabiamente como sua estação favorita. E o olhar... Ah o olhar... Na Maravilhosa que tem lago, serra e mar. Nele a alteração da cor varia de acordo com o humor.


Ela é mesmo uma muralha de baixa estatura. Ela não é dócil, ela só adocica a vida. E há quem resista a todo encanto. São esses os que já se cansaram no meio do caminho.


- Mas minha mãe ta lá ó!


- Pensou que a filha fosse chorar no primeiro dia de aula e ela só deu tchal.


- Tão meu irmão, os outros zeladores, as crianças, uma feiticeira que me ensina o que fazer do mundo.

A Luiza só se cercou porque não achou o trovador. No entanto eu já a vejo, criando uma cena, fingindo-se de bicho-grilo, cantando que ela brinca de amor.

E cuidado, que todo mundo acreditou!

22 de fevereiro de 2010

Sugerindo para acalentar

O carnaval acabou...

Fica uma música para repor as energias positivas para o ano que vem. Dou meu trecho favorito:

'Só desejava o amor dos homens pra bem amar'